segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O zero e o infinito

O zero e o infinito é um daqueles livros que te faz pensar: o que é próprio do ser humano e o que faz parte de sua época? Realmente o ser humano é livre para fazer suas escolhas e até que ponto é influenciado por um sistema, uma ordem social e por instituições, qual sua contribuição individual no “rumo” da História?
O livro foi escrito pelo jornalista Arthur Koestler em 1941, apresenta um relato ficcional, da vida de Rubachov, a narrativa se passa num país inexistente, dominado por um Partido (alusão ao partido comunista) cujo líder mor era chamado de “nº1.”. Rubachov é um preso político que aguarda julgamento. Este senhor de cavanhaque e pince-net é nada mais nada menos que um ex-integrante do Partido, um bolchevique que foi acusado de traidor. O que torna o livro tão importante a ponto de ser comparado a livros como a Revolução dos Bichos, Admirável Mundo Novo e 1984 é o fato de ter sido escrito num momento propício, no “olho do furacão”.  Após ser capturado por fascistas e ser condenado à morte, o autor do livro é solto, através de um pedido da Inglaterra. Logo em seguida estoura a segunda Guerra Mundial, o livro faz uma alusão clara aos expurgos e intransigências Stalinistas, mostra que haveria uma distinção em voga entre dois sistemas, duas “atitudes em conflito”, a primeira a marxista, que subordinaria os fins aos meios, que o fim mais almejado em relação ao individuo é sua subordinação total ao Estado. Na segunda atitude o individuo teria uma “importância suprema”, daí o nome da tradução do livro aqui no Brasil ser O zero e o infinito.  
Na prisão antes de esperar seu desfecho final, que provavelmente seria a morte, Rubachov vai lembrando-se de tudo que viveu e realizou pelo partido, todas as “maldades” que realizou, pensando que os fins justificavam os meios, estava seguindo o rumo da História, o Partido estava absolutamente certo e sua tarefa era somente segui-lo. Rubachov agora não passava de um preso político que andava freneticamente de um lado a outro da cela, atordoado por suas lembranças que o fazem se enxergar como um zero no infinito.

Em uma passagem interessante, Rubachov se lembra da vez na qual deserdou um dos integrantes do Partido porque este não distribuiu em sua cidade o material panfletário, alegando estar errado, isto para Rubachov se tratava de derrotismo e traição ao Partido. Para Rubachov “O Partido nunca pode errar. Eu e o camarada podemos cometer um erro. O Partido não. O Partido, camarada, é mais do que você e eu e milhares de outros como você e eu. O Partido é a corporificação da ideia revolucionária da História. A História não conhece escrúpulos nem vacilações. Inerte e infalível ela marcha para seu alvo. [...] A História conhece seu caminho. Não erra. QUEM NÃO TEM FÉ ABSOLUTA NA HISTÓRIA NÃO PERTENCE ÀS FILEIRAS DO PARTIDO”.   Sendo assim o autor do livro enxerga que a filosofia marxista engessaria as pessoas e que os fins justificariam os meios. O mais interessante de tudo é que a Guerra Fria ainda estava por acontecer o que torna O Zero e o Infinito um livro que vai retratar um longo futuro entre os dois blocos, digamos assim. Para, além disso, vai mostrar a relação do personagem principal no reconhecimento do seu EU, através de seu contato com os outros presos, com a dor, a fome, a morte e seu principal pesadelo: o passado e sua consciência pesada por tudo que fez.

 KOESTLER, Arthur. O zero e o infinito. Editora Globo, 1964.     

quinta-feira, 27 de junho de 2013

América Latina - um "continente" esquecido?


Comentário sobre o Livro:
REID, Michael.  Cap.1 “O CONTINENTE ESQUECIDO” In: O Continente esquecido: A batalha pela Alma Latino-americana. Rio de Janeiro. Ed: Elsevier, 2008.
 

O autor tenta mostrar porque a América Latina é um continente esquecido politica e economicamente falando. Quando se fala de América Latina, o mundo lembra logo de sua cultura, da música brasileira, do tango argentino, da herança deixada pelos maias, incas e astecas. A América Latina não é tão pobre para que se lembrem dela querendo ajudar financeiramente, não é perigosa para que o mundo se volte estrategicamente contra ela e não vive um crescimento econômico rápido. Logo, é culturalmente que nosso “continente” se faz sentir no mundo.

              A América Latina junto com Europa e América do Norte, “forma o terceiro maior grupo de democracias do mundo”. (p.4) Mesmo possuindo uma democracia, não abrigando mais ditaduras, nosso continente possui a maior desigualdade em distribuição de renda, “tem a distribuição de renda mais desigual do mundo”.  No inicio do século 21 cerca de 205 milhões de pessoas da América Latina se encontravam a baixo da linha nacional de pobreza de seus países. 

                O trabalho apresentado por Reid consiste em mostrar como a América Latina tem tentado desenvolver um capitalismo democrático. A América Latina seria um laboratório de testes da democracia. Os esforços dos países são de ter sistemas políticos eficientes e equitativos juntamente com crescimento econômico e desenvolvimento. Reid escreve esse livro com toda propriedade, pois percorreu diversos países da América Latina, morou no Brasil, no Peru, viveu durante muito tempo na região, cobriu a América latina como repórter pela BBC, o Guardian, e The Economist.

                Da esperança à decepção

O autor mostra que em 1994 exceto cuba e México eram países democráticos na América latina, os países estavam vivendo uma “onda democrática” desde 1978, pois aboliram ditaduras “sangrentas e nefastas”  adotaram um política de livre comércio, o que o autor denomina Consenso de Washington ou “Neoliberalismo”.  A adoção dessas politicas, contra a politica de proteção do Estado gerou muito otimismo.  O autor fala que tão depressa como o capital tinha chegado ele podia ir embora. A principio essas medidas trouxeram um crescimento econômico, porém, foram acompanhadas por crises, o que o autor chama de meia década perdida, as reformas de livre mercado caíram em descrédito, juntamente com as privatizações, que eram associadas a corrupção. O consenso de Washington foi acusado pela crise econômica da Argentina, essa acusação é errônea, pois o Chile conseguiu atingir um estagio democrático segundo os termos da ciência política, a Argentina quebrou por motivos de erro dos seus governantes, os quais põem a culpa no neoliberalismo.  A América Latina segundo  o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas não desenvolveu uma democracia de cidadãos.

                Para Reid o problema não é o consenso de Washington, a pobreza, as desigualdades não foram criadas por ele. O problema não são as reformas econômicas, mas aquilo que não foi reformado, as instituições e o Estado. Os problemas já existiam antes do consenso. O autor reconhece e argumenta que “democracias de massa genuínas e duráveis surgiram em boa parte da região”, o autor argumenta que em alguns dos países da região a democracia pode ser revertida, mas em boa parte está prestes a ser consolidada, e isso é um processo recente. Entre progresso e tentação populista, durante muito tempo o populismo impediu que a democracia se estabelecesse na região. Por populismo o autor entende como um tipo de  politica em que o líder carismático se passa por salvador, como um herói, na qual é embaçada a imagem de governo, líder, partido e Estado, nessa politica o executivo se sobrepõem aos demais poderes. Em segundo lugar o líder populista distribui renda ou riqueza de maneira insustentável, são exemplos de lideres populistas, Getúlio Vargas, Perón, José Maria Velasco. O populismo ainda persiste em alguns países da região, segundo o autor, a população pobre se identifica com o líder populista por este se considerar um deles, geralmente há uma identificação étnica(é o caso de Evo Morales).

Uma e muitas Américas Latinas  

Neste subtópico  o autor mostra que há uma grande diferença entre os países da América Latina ele faz uma análise breve de “algumas das diferenças na cultura, na história e no panorama dos países que constituem a região.”.  Primeiramente o autor fala sobre o Brasil, um país que foi marcado pela escravidão, e segundo o autor o racismo no Brasil é sutil diferentemente de outros países da região. No Brasil racismo nunca foi sinônimo de segregação racial. Em fim, o autor descreve um pouco da história dos países que ele acha que constitui a “América Latina”, define esse termo, e fala o percurso histórico desses países, o momento da ditadura, mostra também a situação econômica ao longo dos anos, principalmente durante o período de ditadura. No final do capítulo o autor debate sobre a ideia dos brasileiros serem ocidentais ou não, por possuir uma grande diferença dos outros países ocidentais,  os latinos americanos se veem como parte do mundo ocidental, mas o mundo “ocidental” vê como um lugar diferente, um “Extremo Ocidente”.

Acredito que não exista “América Latina”, prefiro ficar com a denominação América do Sul, América do norte, etc..., América Latina a meu ver é um termo de diferenciação racial, o próprio autor fala que existe uma América Latina dentro dos Estados Unidos.

sábado, 23 de junho de 2012

TiURÍA

                     A História tem uma linguagem cientifica, assim como a biologia, a matemática, a administração. E também é uma arte, bem como essas anteriores. História para Marc Bloch é o estudo do homem no tempo. Além de ser o estudo do homem no tempo, este estudo deve trazer um significado, uma relação com o presente. Se esta história não fizer significado para quem a vê, ela vira só uma narrativa, tornando-a bem chata. Para que uma pessoa vai estudar a narrativa da Guerra do Paraguai ou da I e II Guerra, se isto não tiver atrelado ao seu presente, à sua realidade. 
                    A Biologia estuda os seres vivos. A Pedagogia estuda o processo de ensino-aprendizagem. A Contabilidade estuda o patrimônio. Curiosamente a  História estuda a história. Ou seja História não é conto de fada, mito, nem historinha, ela é científica, produção acadêmica que tem por objeto de estudo A história. Mas como esta história não pode ser resgatada na sua totalidade, o historiador faz recortes do que ocorreu, criando assim  a memória daquilo que foi vivido. Criando o tempo histórico, o tempo histórico é diferente do  tempo cronológico. O primeiro é feito pelos recortes de tempos e períodos, e por teorias difundidas e aceitas pelos historiadores em determinado período do tempo cronológico da história. (Muitas vezes quando lembramos da nossa história escolar, lembramos de decorar datas, grandes nomes, heróis,cronologia, Europa). O tempo cronológico, do cronos, é aquele que está passando (como disse Cazuza este não para).  É o tempo do relógio, dos minutos, dos segundos, dos centésimos. 
                     Fazendo uma metáfora entre esses dois tempos sobre seu aniversário: No tempo histórico seu aniversário, pode ter várias interpretações, da sua mãe, do seu pai, sua própria. Estaria atrelada à memória que é muito parecida com História.Viraria uma narrativa, pode virar um livro, e futuramente História científica(se alguém futuramente achar que você foi importante no seu tempo e deve ser lembrado). Já no tempo cronológico, seu aniversário já passou, foi num determinado dia, determinada hora, durou tanto tempo. Agora será que ele pode ser recuperado e descrito assim como aconteceu (no tempo cronológico). Ou não existe a história? Existe apenas memória, e recortes temporais? Só a título de curiosidade, alguns historiadores vêem como pai da História (se é que ela tem um pai) o grego Heródoto.